A inteligência artificial chega às redações portuguesas
Vários jornais nacionais começaram a integrar ferramentas de inteligência artificial no fluxo editorial, levantando questões éticas e profissionais.
Nos últimos meses, várias redações portuguesas começaram a experimentar, de forma discreta mas sistemática, ferramentas de inteligência artificial generativa. A transcrição automática de entrevistas, a sugestão de títulos e a tradução instantânea de despachos internacionais deixaram de ser promessas futuristas para se tornarem rotinas quotidianas em jornais como o Expresso, o Público e o Observador.
Apesar do entusiasmo, os diretores editoriais sublinham que a tecnologia ainda não substitui o discernimento humano. "A máquina é extraordinariamente rápida, mas não tem critério jornalístico nem responsabilidade legal", afirmou um editor ouvido por este semanário. A maior parte das redações optou por publicar diretrizes internas que delimitam claramente o que pode, e o que não deve, ser delegado a um algoritmo.
O debate ético também ganhou contornos sindicais. O Sindicato dos Jornalistas exige garantias contra eventuais despedimentos motivados pela automatização de tarefas e propõe que qualquer conteúdo gerado ou substancialmente assistido por inteligência artificial seja devidamente assinalado junto do leitor. A transparência é, segundo o sindicato, uma condição indispensável para preservar a confiança do público.
A nível europeu, o regulamento conhecido como AI Act, aprovado em 2024, impõe obrigações específicas aos meios de comunicação. As redações terão de documentar os modelos utilizados, avaliar riscos relacionados com a desinformação e assegurar que existem mecanismos de supervisão humana. Em Portugal, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social já anunciou que prepara recomendações próprias.
Para os jornalistas mais experientes, o desafio é simultaneamente técnico e cultural. Trata-se de aprender a dialogar com sistemas que produzem texto coerente sem compreender verdadeiramente o que dizem, e de defender, no terreno, o valor insubstituível da reportagem, da verificação no local e do contacto direto com as fontes.