Oceanos em silêncio: a acidificação invisível que ameaça o Atlântico
A absorção crescente de dióxido de carbono pelos oceanos está a alterar a química marinha a um ritmo sem precedentes na história geológica recente.
Sob a superfície aparentemente imutável do Atlântico, decorre uma transformação química cuja magnitude só agora começa a ser plenamente compreendida. Os oceanos absorveram, desde o início da era industrial, cerca de um terço de todo o dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas, funcionando como um amortecedor climático cuja eficácia tem, contudo, um preço biogeoquímico considerável: a progressiva acidificação das águas marinhas.
O processo, em si mesmo, é elementar. Ao dissolver-se na água, o dióxido de carbono forma ácido carbónico, que liberta iões de hidrogénio e reduz a disponibilidade de iões carbonato. Estes últimos constituem o material de construção indispensável a corais, moluscos, equinodermes e a uma miríade de organismos planctónicos cujas conchas e esqueletos calcários sustentam, na base da cadeia trófica, todo o edifício vivo dos oceanos. A erosão progressiva destas estruturas calcárias acarreta consequências cuja escala excede, em muito, o registo das extinções históricas documentadas.
Os investigadores do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, em colaboração com congéneres europeus, têm vindo a documentar uma descida do pH oceânico estimada em cerca de 0,1 unidades desde meados do século XIX, o que, em termos logarítmicos, traduz um aumento de aproximadamente trinta por cento na concentração de iões de hidrogénio. Embora estes valores possam parecer modestos a um leitor leigo, situam-se muito para além da variabilidade natural observada nos últimos vinte e cinco milhões de anos.
As implicações económicas, longe de serem hipotéticas, manifestam-se já na aquicultura do noroeste peninsular, onde produtores de mexilhão e de ostra relatam dificuldades crescentes na fixação das larvas. A pesca artesanal, particularmente vulnerável devido à sua reduzida capacidade de adaptação tecnológica, depara-se com a deslocação progressiva de espécies para latitudes mais elevadas, em busca de águas mais frias e quimicamente mais estáveis.
A resposta política, todavia, permanece desproporcional face à gravidade do diagnóstico. Os acordos internacionais sobre clima, centrados quase exclusivamente nas emissões atmosféricas, tendem a relegar para um plano subalterno a dimensão oceânica. Sem uma estratégia coordenada de mitigação, que conjugue a redução drástica das emissões com a preservação ativa dos ecossistemas marinhos, corremos o risco de assistir, em silêncio, ao colapso de processos ecológicos que demoraram milénios a estabilizar.